Em um mundo cada vez mais conectado por telas, tecnologias com mais de cinco mil anos seguem cumprindo um papel essencial: aproximar pessoas. Os jogos de tabuleiro, muitas vezes vistos apenas como entretenimento, vêm sendo redescobertos como verdadeiros “lubrificantes sociais”, capazes de facilitar interações, fortalecer vínculos e até superar barreiras culturais.
Estudos recentes conduzidos por Walter Crist, pesquisador da Universidade de Leiden, lançam nova luz sobre a importância histórica desses jogos. Utilizando inteligência artificial, ele conseguiu reconstruir possíveis regras de um jogo da época do Império Romano encontrado na Holanda — uma descoberta que reforça o papel dos jogos como ferramentas de interação desde a Antiguidade.
Segundo Crist, tabuleiros que remontam à Idade do Bronze já indicavam que jogar era mais do que passatempo: era uma forma de comunicação. Em sociedades cada vez mais complexas, com crescimento urbano e intensificação do comércio, esses jogos criavam “espaços sociais paralelos”, onde pessoas de diferentes origens conseguiam interagir mesmo sem compartilhar o mesmo idioma.
Um exemplo simbólico dessa troca cultural são os tabuleiros de dois lados. De um lado, jogos de origem estrangeira, como os egípcios; do outro, versões locais. Esse formato revela um intercâmbio cultural espontâneo, que não dependia de guerras ou dominação territorial — apenas da convivência entre povos.
E o papel social dos jogos segue atual. Uma pesquisa da Asmodee, gigante global do setor, mostra que 70% das pessoas têm contato com jogos de tabuleiro. Mais do que isso: dois em cada três entrevistados afirmam que eles fortalecem laços com amigos e familiares, enquanto 40% dizem que se sentem mais à vontade para se expressar durante uma partida do que em conversas tradicionais.
O crescimento do mercado acompanha essa redescoberta. Dados da Circana, divulgados pela revista The Economist, apontam que o segmento de jogos e quebra-cabeças cresceu 30% em 2025 — quatro vezes mais do que o setor de brinquedos em geral. No Brasil, o avanço também é significativo, com aumento de 28% no número de lançamentos entre 2020 e 2025.
Em tempos de excesso digital e relações cada vez mais mediadas por telas, recorrer a práticas milenares pode ser mais atual do que nunca. Os jogos de tabuleiro provam que, às vezes, a melhor tecnologia para conectar pessoas é justamente aquela que atravessou gerações sem precisar de bateria, internet — ou tradução.



